A Sangue Frio

A Sangue Frio (In Cold Blood,1967. Dir.: Richard Brooks; Com: Robert Blake, Scott Wilson)
Por Henrique Wagner
Quem não leu o revolucionário romance-reportagem de Truman Capote In Cold Blood (A Sangue Frio, editado no Brasil pela Cia. das Letras), publicado em 1966, assistindo ao filme dirigido por Richard Brooks (que realizou Gata em Teto de Zinco Quente) terá a mesma impressão de quem o leu: translúcido susto e uma estranha sensação de insegurança em sua própria casa, mesmo com o sol a pino, além de uma fração mínima de piedade pelos assassinos, ainda que realmente culpados.
Por Henrique Wagner
Quem não leu o revolucionário romance-reportagem de Truman Capote In Cold Blood (A Sangue Frio, editado no Brasil pela Cia. das Letras), publicado em 1966, assistindo ao filme dirigido por Richard Brooks (que realizou Gata em Teto de Zinco Quente) terá a mesma impressão de quem o leu: translúcido susto e uma estranha sensação de insegurança em sua própria casa, mesmo com o sol a pino, além de uma fração mínima de piedade pelos assassinos, ainda que realmente culpados.
O filme obedece à risca a narrativa de Capote, que também se notabilizou por seus roteiros para Hollywood. Contemplativa como a extensa paisagem rural do sul dos Estados Unidos, a narrativa começa linear, até bifurcar-se pelos depoimentos dos acusados: dois egressos de uma mesma penitenciária, um por furto, outro por assassinato.
Perry Smith (Robert Blake) não sabe muito o que fazer com a liberdade que a condicional lhe concedera. Mas trata-se de um jovem atormentado, com evidente fragilidade mental e protuberante infância descontinuada precocemente. Seu sonho é virar uma estrela da música no México.
No entanto, encontra – ou é encontrado – no caminho um “amigo” de cela, Dick Hickock (Scott Wilson) que tem um “plano perfeito” para embolsarem juntos 10 mil dólares. O plano: assaltar a casa de uma pacata família de fazendeiros em Holcomb, uma cidadezinha de 270 habitantes, no Kansas. Perry aceita a proposta, desde que Dick o acompanhe até o México. Dick aceita, porque seu sonho é mais concreto e imediato, encontra-se a alguns quilômetros de onde estão, e pode ser realizado por muito pouco, dado que já são criminosos, não teriam dificuldades morais estorvando o plano. Além do mais, que motivo Dick teria para ser um homem de palavra?
O leito de motivo da história, real, muito bem contada por Capote e “revelada” por Richard Brooks, está na violência gratuita: a família é assassinada – são quatro pessoas, sendo dois adolescentes – com “requintes de crueldade” em troca de um binóculo, um rádio e 43 dólares, exatamente o que acharam, e pronto.
A saída para a questão está na construção psicológica das personagens, incrivelmente ricas em detalhes, escaninhos e desdobramentos. Perfeita combinação do yin e yang, Perry e Dick formam uma excelente dupla de fracassados, decifrada pela argúcia e transgressão de Capote, e pela lente realista de Brooks.
Scott Wilson, na pele do cruel, cínico e temerário Dick, nos faz pensar na excelência dos antigos vilões norte-americanos, como Robert Mitchum e Richard Widmark. Há que se aproveitar ainda da belíssima trilha sonora, conduzida com grande inspiração pelo sempre genial Quincy Jones – reparem nas harmonias para baixo acústico.
A Sangue Frio, de Truman Capote e Richard Brooks, é um pioneiro na realização de um documentário policialesco com profunda psicologia, tão genial, que nos faz pensar o tempo todo tratar-se de ficção. Sabendo ser real a história, nos deixamos ser bem enganados pela arte.
Melhor assim.